Lavando as próprias cuecas (ou revendo os privilégios)

Dedicado a todas as mulheres que pereceram na luta por suas próprias vidas. 



O convido a sair da Casa dos Homens

- essa carapaça dura e impermeável

dentro da qual há apoio, acolhimento 

e nenhuma necessidade de se questionar

sobre suas ações, omissões e silêncios.

Aí você está milenarmente

legitimado

em seu poder.

No entanto, essa estrutura não te permite crescer

para além do seu phalo. 

Talvez não te interesse crescer

e assumir as responsabilidades.

No entanto, o quarto do Barba Azul foi aberto.

O sangue de mulheres já escorre por todos os cômodos desta casa.

E não pode mais ser ignorado. 

Este sangue também está em suas mãos,

ainda que você diga que não é todo homem. 

Mas é sempre um homem,

mais um assassino,

os responsáveis por essas mortes todas. 


Neste primeiro momento vamos circular

a casa dos homens.

Olhar por fora a estrutura

pode nos ajudar a destroná-la.

Recorda o seu primeiro interdito.

De acordo com Freud,

desejar sua própria mãe é um veto. 

E o que se apresenta no desejo? 

Mais que tomá-la, é torná-la parte de você

O interdito cultural que funda a casa dos homens

é não ser uma mulherzinha

Tudo desse universo chamado Mulher

- é considerado fraco, menor, vil.

Passível de dominação,

opressão

e desconsideração. 

Ela sempre pertence a outro:

seja o pai ou a outros possíveis desejos.

E isso a torna sedutora,

perigosa,

destruidora,

castradora,

a que pediu por isso!

Foi ela, inclusive, que levou a raça humana à queda. 


Recorda quando você foi obrigado

a engolir seu primeiro choro 

e assim se afastar das suas emoções. 

Recorda quando te compararam

pela primeira vez

com uma mulher, 

isso foi motivo de orgulho ou de vergonha?

Isso te elevou ou te diminuiu? 

Olha em volta e reveja os privilégios do seu pai

e tudo o que lhe era servido,

quais obrigações lhe cabiam?

Quem fazia todos os outros serviços?

O serviço invisível daquela que cuidava do lar.

Quem lavava as suas cuecas? 

Consegue ver os rostos e mãos

invisíveis

daquelas que te serviram? 

E se na condição de serviçal

você enquadrou as primeiras

mulheres da sua vida,

como você passou a enxergá-las? 

Por quais lentes foram lhe apresentados os corpos femininos? 

Como partes a serem desejadas e tocadas? 

Alguém te ensinou sobre consentimento? 

Alguém te mostrou alguma mulher

como dona do seu próprio desejo 

e portanto senhora do próprio corpo e da própria vida? 

Nas revistas ou vídeos aquelas mulheres

tinham nomes para além da encenação,

ou eram apenas objetos de desejo,

a serem penetradas e esquecidas depois de um gozo?

O levaram em um prostíbulo? 

Qual humanidade cabia a uma puta? 

Como você separou o afeto do desejo? 

Talvez tenha sido este o momento em que você entrou 

pela porta da frente da Casa dos Homens.

Onde todos passam a ter o mesmo rosto, 

a mesma performance.

O direito sobre a vida e a morte

dos que estejam abaixo da Lei do Pai. 

Qual tipo de lealdade perversa é exigido? 

Lealdade que mantém privilégios. 

Desde se apropriar da vida e criação das mulheres,

de ignorar os seus corpos orgásticos,

afinal só o seu gozo deve bastar. 

De nunca questionar a necessidade

de lavar suas próprias cuecas, de servir,

de elaborar seus sentimentos e colocá-los

sem o rótulo de verdade absoluta

ou fruto de uma inquestionável razão. 


A casa dos homens está desmoronando 

mesmo que muitos ainda lutem para mantê-la impune.

Ela está cercada de vidas interrompidas brutalmente.

E que ainda assim não se calam!

Crescer, meu caro, significa aceitar os términos

da sua condição infantil e tirana.

Lide com seu rancor dela não precisar de você.

A sombria  inveja do útero,

talvez seja a inveja da capacidade feminina

de recriar uma vida, 

a própria vida, 

sem a sua anuência,

presença 

ou participação.  

Ela não quer mais

Ela não é um objeto seu,

é uma vida com direito às suas próprias escolhas.

É inútil silenciar este não. 

 

Como a Donzela dos Cabelos Dourados

morta pelo filho do carvoeiro,

por não aceitar seu bruto afeto

e por querer viver sua vida à sua maneira.

Mesmo depois de morta 

seus cabelos rasgaram a terra negra

e denunciaram a todos os crimes 

que insistem sobre nós,

nossas vidas, nossas histórias:

“Aqui jaz a mulher dos cabelos dourados, 

assassinada e enterrada

morta pelo filho do carvoeiro 

porque tinha vontade de viver...” 

Para que todos os criminosos sejam entregues à justiça 

e que os bosques da vida possam voltar a ser lugares seguros 

para todas, para todes.

(Tatiane Moreira Ferreira) 

 

 


 

 

Passeata Mulheres Vivas, em BH- MG 07-12-2025
(acervo pessoal) 


 Conto Barba Azul, Charles Perrault disponível em:< https://cabana-on.com/Ler/wp-content/uploads/2017/09/Charles-Perrault-Barba-Azul.pdf>.

 Conto a Mulher dos Cabelos Dourados.  https://entretexto.com/a-mulher-dos-cabelos-de-ouro-conto-tradicional/

Versão da história apresentada no livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés, Ed. Rocco, 2014.

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