Os pelos crespos
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
(Chico Buarque e Milton Nascimento)
Durante um diálogo com um homem, toquei o seu braço, despretensiosamente. Logo fui invadida pela textura dos seus pelos crespos e num átimo tive a sensação de resvalar sobre seu corpo, sentindo seus pelos friccionando com a minha pele, minha vulva. Num átimo voltei para o normal da situação, um pouco assustada com o universo paralelo que se abriu em minha cabeça e do quanto o corpo traduz de forma sinestésica as impressões que chegam.
Quanta informação nos chega pelo corpo, muito além de sensações térmicas de calor ou frio. Informações que conversam com nosso repertório sensorial. Afetamos e somos afetados, faz parte da experiência humana. Negar isso, é reprimir a própria vida. A repressão é uma amarra, um cabresto que nos impede de ver, sentir, comunicar através desse envoltório de carne, complexo e sublime. Sentir não significa dar vazão a tudo o que nos chega, mas se permitir ao menos perceber as impressões do entorno é ampliar a consciência a respeito de quem somos.
O corpo diz sim e não. O corpo sempre mostra os limites, as necessidades. Mas não estamos familiarizados com sua linguagem, apesar de habitá-lo. Habitamos com nossa cabeça, com nossos valores, não somos educados a senti-lo e a nos sentir dentro dessa perspectiva. Julgamos as sensações, somos colonizados para reprimi-lo, para fazê-lo caber nas receitas culturais de vida que de tantas maneiras negam nossas profundezas.
Sentir desejo pelos pelos crespos, não significa uma necessidade de envolvimento com o homem. Não é sobre o outro, é sobre como nos sentimos, nos percebemos, as memórias insurgentes da sexualidade natural em nós e por ser tratada como um tabu, negada, contida, é força que se torna pervertida. O âmago da repressão é a liberação mais sombria dos instintos, vejam os insanos números de estupro e suas hediondas faces. Porque não suportamos olhar para o que sentimos, somos possuídos pelo que não ousamos nomear em nós, tornando-nos não apenas nossas próprias vítimas como também vitimando os outros. A sombra nos espreita, estampa os jornais com nossa belicosidade, jogando na nossa cara tudo o que falhamos em integrar e transformar.
Integro e transformo a experiência dos pelos, a compreendendo como essa capacidade comunicante e sensorial dos nossos corpos em encontros. Acolho as memórias e mais uma vez me contemplo a imagem: a mulher cavalgando nua sobre os pelos crespos, nada que eu precise realizar. Sentir basta.
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