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Espelho da vida

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Ventania de agosto Varrendo o que sobra do inverno  Olhos em vigília Os dissabores da vida ventam sobre mim O que estariam varrendo? A alma não adormece Analisa, busca saída Se desespera É isso mesmo vida? As questões não mudam  É sempre a mesma luta contra as misérias humanas: a inveja, o egoísmo, a soberba Mãos incapazes de se estender em auxílio  e que só apontam erros Onde há um espelho capaz de mirar no que é belo? Capaz de contemplar diferenças, não como deficiências Mas como essenciais à vida?  Essa ventania juntando tudo o que está ao rés do chão Recorda que apesar da solidão na qual caminhamos O movimento da própria vida é juntar o que está separado É sempre soma, não subtração Combinação de habilidades num coral de vozes E que embora cada voz seja única, unidas é que alcançam melhor tom Arte de Daiara Tukano,  Kahtiri E'õrõ - Espelho da vida, 2020. Exposto na 34ª Bienal de São Paulo.

Cadelas no cio

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Curioso ouvir algumas mulheres fa lando da sexualidade das mais jovens. Nada sobre a força magnetizadora do desejo. Ou do caminhar sinuoso da cintura,  o balanço de um quadril que se insinua. Tudo resumido grosseiramente: -Cadelas no cio! Também já tive treze anos, áviida de desejos. Transitando entre curiosidade e intuição. Ansiosa pelos cumes do prazer (E que só são alcançados plenamente muitas, muitas, muitas luas depois). Recuso-me a resumir em cio aquilo que matiza toda nossa existência. E que vai muito além dos feromônios. É o rito pagão do corpo, da entrega e da partilha É a loucura das bacantes atrás de Dionísio. Uivo de bucetas carnívoras. É festa boa, com dança muita e embriaguez bastante!  Recalcadas condenarão. E o feminino hostil, aquel e que se virou contra si mesmo manchado da misoginia e adorador do falo do patriarcado - mulheres secas, mulas sem cabeça s relinchando Imp ropérios, sem capacidade de refletir sobre seus próprios cabrestos.  Prefiro as cad...

Ferocidade e doçura

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Conviver exige ferocidade.  Calma, não estou incitando a violência. E sim, atenção aos nossos próprios limites. A incompreensão e exigência dos outros não pode ser absorvida. A ferocidade aqui é garantia de que nossos limites não serão ultrapassados. Vale mostrar os dentes quando necessário, vale silenciar sobre a palavra mal dita. Não absorva o que não é seu.  Que o veneno fique para quem o destila. Conviver exige doçura seja conosco mesmo, seja com quem merece seu toque de mel. Não dê pérolas a quem não as pode valorizar. Não se dê a quem insiste em não reconhecer seu valor, sua presença. Esteja sempre em exercício de ferocidade e doçura. (Tatiane Moreira)

Ás de Copas

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Ele disse que é meu. Humildemente, aceito. Já dizia um antigo provérbio africano: "O que a vida lhe der, aceite com ambas as mãos." Confio na vida. Às vezes ela nos bate à porta como um desconhecido. E nos faz convites que tememos aceitar. Dizer sim, é crescer em experiência. Dizer não, é negar a urdidura da sua própria história. Destinos não se cruzam ao sabor dos acasos. Destinos se tecem a partir de um sim!  

Como um lar

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Todo encontro de corpos É uma troca É uma possibilidade de abrigo Alguns corações são como hotéis impessoais e frios Não servem para moradia Outros estão repletos de espinhos Peritos em ferir quem se aproxima Ainda há outros... ah! Que são como fogueira intensa de carinhos Queimam a pele, alcançam a pelve Com a profundidade do desejo Não precisa medo de se entregar Não precisa vergonha em se desnudar Corações abertos que reconhecemos como um lar (Tatiane Moreira - Os poemas que pari) Arte de Valentina Mavrodoglou

Estações

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  Nas árvores em frente minha casa é tempo de queda das sementes. E em minha pele é tempo de cicatrização. A pele antiga caindo feito casca, levando lembranças Que já não faço questão. Continuo no ofício de me amar e fazer amor comigo mesma. Acordar em mim, recordar de mim. Vomitar os venenos, cuspir o asco. Renovar caminhos. É inverno lá fora, mas aqui dentro floresço. É primavera. As sementes que caem com seus sons secos Recordam as portas que se abrem para os benditos recomeços.  (Tatiane Moreira)

Assovio

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Ninguém abra a sua porta para ver o que aconteceu: saímos de braços dados, a noite escura mais eu. Começo com o “Assovio” dado por Cecília Meireles. Esse assovio acompanhou-me por toda noite, a noite escura mais eu. Dar os braços para noite significa acompanhar a própria sombra, acolher a solidão, exatamente porque nada significa. O silêncio estava presente, cortado apenas pelo som dos meus passos no asfalto. Da noite, eu não ouvia os passos, apenas sentia seu toque frio envolvendo meus braços. Não temia nenhum assalto. Afinal, como o próprio poema diz: “não posso perder mais nada, se o que houve já se perdeu”. E de perdas somos feitos, estamos todos marcados por alguma impossibilidade, portas e braços fechados para nos receber. Entre o sim e os nãos que recebemos, vamos nos fazendo, tecendo histórias e versos em uma tentativa desesperada de sobreviver aos golpes, as insinceridades, as vilanias de cada dia.  “A noite não sabe meu rumo, eu não lhe pergunto o seu”, já que seg...