Postagens

688 mil motivos

Imagem
Espero despertar desse pesadelo coletivo  que já dura quatro longos anos, perdemos tanto,  choramos muito. E ainda há aqueles que sustentarão o mesmo voto esquecidos das 688 mil vidas perdidas. O negacionismo os cega e não apenas. Alegarão a importância da pauta econômica, cegos para o crescente número dos sem-teto e a pobreza avassaladora sob marquises e viadutos. Nosso analfabetismo político misturado em “fake news” e máximas bíblicas obscureceu a razão. O grave problema é que a razão adormecida produz monstros,  já alertava Goya em 1799. O preço do leite, do óleo de soja ou de um simples sabonete  os tornaram artigos de luxo para muitos bolsos. E há quem diga nunca ter visto alguém pedir pão no caixa da padaria.  Nossas afirmações estão matizadas por nossos lugares de fala,  é preciso sair do exercício da cegueira contumaz para ver. Como presidente, como vou combater a fome, a miséria  se insisto em negá-la?  Se diante da dor do outro proc...

Chuva fina

Imagem
 Chuva fina me faz companhia. Silenciosas, nos observamos. Há quanto tempo não nos víamos?  Ela sempre úmida e fria, eu também fico úmida às vezes,  bem abaixo do monte de Vênus onde sempre é calor. Meus olhos seguem em vigília, espreitam lembranças,  mas não se fixam. Nada é para durar  nessa vida de arranjos temporários  e  promessas efêmeras. Deixo que a chuva fina inunde minh'alma. Ela é o amante de passagem nessa noite que me envolverá em seus braços, gotejará seu gozo sobre meu corpo  e  gentilmente me embalará nos meus sonhos noturnos. (Tatiane Moreira)

Espelho da vida

Imagem
Ventania de agosto Varrendo o que sobra do inverno  Olhos em vigília Os dissabores da vida ventam sobre mim O que estariam varrendo? A alma não adormece Analisa, busca saída Se desespera É isso mesmo vida? As questões não mudam  É sempre a mesma luta contra as misérias humanas: a inveja, o egoísmo, a soberba Mãos incapazes de se estender em auxílio  e que só apontam erros Onde há um espelho capaz de mirar no que é belo? Capaz de contemplar diferenças, não como deficiências Mas como essenciais à vida?  Essa ventania juntando tudo o que está ao rés do chão Recorda que apesar da solidão na qual caminhamos O movimento da própria vida é juntar o que está separado É sempre soma, não subtração Combinação de habilidades num coral de vozes E que embora cada voz seja única, unidas é que alcançam melhor tom Arte de Daiara Tukano,  Kahtiri E'õrõ - Espelho da vida, 2020. Exposto na 34ª Bienal de São Paulo.

Cadelas no cio

Imagem
Curioso ouvir algumas mulheres fa lando da sexualidade das mais jovens. Nada sobre a força magnetizadora do desejo. Ou do caminhar sinuoso da cintura,  o balanço de um quadril que se insinua. Tudo resumido grosseiramente: -Cadelas no cio! Também já tive treze anos, áviida de desejos. Transitando entre curiosidade e intuição. Ansiosa pelos cumes do prazer (E que só são alcançados plenamente muitas, muitas, muitas luas depois). Recuso-me a resumir em cio aquilo que matiza toda nossa existência. E que vai muito além dos feromônios. É o rito pagão do corpo, da entrega e da partilha É a loucura das bacantes atrás de Dionísio. Uivo de bucetas carnívoras. É festa boa, com dança muita e embriaguez bastante!  Recalcadas condenarão. E o feminino hostil, aquel e que se virou contra si mesmo manchado da misoginia e adorador do falo do patriarcado - mulheres secas, mulas sem cabeça s relinchando Imp ropérios, sem capacidade de refletir sobre seus próprios cabrestos.  Prefiro as cad...

Ferocidade e doçura

Imagem
Conviver exige ferocidade.  Calma, não estou incitando a violência. E sim, atenção aos nossos próprios limites. A incompreensão e exigência dos outros não pode ser absorvida. A ferocidade aqui é garantia de que nossos limites não serão ultrapassados. Vale mostrar os dentes quando necessário, vale silenciar sobre a palavra mal dita. Não absorva o que não é seu.  Que o veneno fique para quem o destila. Conviver exige doçura seja conosco mesmo, seja com quem merece seu toque de mel. Não dê pérolas a quem não as pode valorizar. Não se dê a quem insiste em não reconhecer seu valor, sua presença. Esteja sempre em exercício de ferocidade e doçura. (Tatiane Moreira)

Ás de Copas

Imagem
Ele disse que é meu. Humildemente, aceito. Já dizia um antigo provérbio africano: "O que a vida lhe der, aceite com ambas as mãos." Confio na vida. Às vezes ela nos bate à porta como um desconhecido. E nos faz convites que tememos aceitar. Dizer sim, é crescer em experiência. Dizer não, é negar a urdidura da sua própria história. Destinos não se cruzam ao sabor dos acasos. Destinos se tecem a partir de um sim!  

Como um lar

Imagem
Todo encontro de corpos É uma troca É uma possibilidade de abrigo Alguns corações são como hotéis impessoais e frios Não servem para moradia Outros estão repletos de espinhos Peritos em ferir quem se aproxima Ainda há outros... ah! Que são como fogueira intensa de carinhos Queimam a pele, alcançam a pelve Com a profundidade do desejo Não precisa medo de se entregar Não precisa vergonha em se desnudar Corações abertos que reconhecemos como um lar (Tatiane Moreira - Os poemas que pari) Arte de Valentina Mavrodoglou