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O Retorno de Perséfone

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 Outono, Tempo de descida ao Reino das Sombras. Cheguei aqui como vítima, sequestrada. Subjugada ao desejo do outro. Feito semente plantada no fundo da terra, perdi a casca que me protegia E começou novo processo. Nesse momento esse desejo também se tornou meu. Nutri-me com as sementes de romã e seu rubor pintou meus lábios e não só. Tingiu também minha alma. Abracei aquelas sombras como minhas e elas não mais me assombraram. Deitei raízes por aquele território desconhecido e ao mesmo tempo estranhamente íntimo. Enveredei-me na profundidade de mim mesma. Toquei meu corpo e aprendi os caminhos do prazer por mim e para mim mesma. Abracei minhas dores, tratei minhas frustrações, suportei as perdas. Deixei-me queimar nas fogueiras dos desejos. Foi assim que me despi do que era, das personas colocadas, esperadas sobre mim. E corajosamente tornei-me quem sou: A Rainha do Mundo Subterrâneo. A coroa que adorna minha cabeça, que sustenta meu orí Está cr...

Mitos de ausência

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Perdi o chão Fiquei sem par Rodopiei alto demais Lançando sementes em terras inférteis E agora a sensação de ter labutado inutilmente Me pesa os braços Me faz soltar o arado E ainda preciso socorrer minha cabeça Pendida sobre um peito inexistente Lamento como Ísis o falo ausente Do seu amado Osíris O mito diz que o deus teve seu corpo todo esquartejado E Ísis conseguiu reunir todas as partes, exceto o pênis Ela reconstrói o corpo Esculpe um falo de ouro Ao sentar-se sobre ele, ela engravida Hórus nasce Assim como nasce esse poema Da inspiração que me penetra Do seu falo ausente (Tatiane Moreira)

Selvageria das flores

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Tempos liquidamente complexos

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O desamor destes tempos complexos tem me feito chorar e perder o sono. Solidariamente estou ao meu lado e seguro minhas próprias mãos quando a angústia e o desespero me visitam. Noites escuras são seguidas por noites escuras, a desumanidade das notícias afetam nossa sanidade e é preciso grande esforço para não sucumbir. Minha subjetividade está manchada por rios poluídos (acaso não sabem que um rio é como um Deus?) e várias poças de sangue facilmente evitáveis se a vida, não o patrimônio, fosse o maior bem a ser preservado. Aqui dentro do peito há um buraco escavado por tantas ações mineradoras, exploradoras e destruidoras da nossa integridade, saúde, beleza e força. Sob a égide do capitalismo nos tornamos também exploradores uns dos outros, arrancando o que queremos das nossas relações e sem qualquer cerimônia, partimos, deixando para trás um rastro de desmatamento e garimpo ilegal nos corações alheios. O amor também está contaminado por mercúrio, não apenas os rios. As relações não...

Dobradura

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  Tirei o coração do peito E fiz uma dobradura Para esconder sua voz E a ausência de candura Marquei bem os vincos Onde se prendeu nossos corpos Puxei as dobras Só não sei o que fazer Com o vão aberto E sem possibilidade de embocadura Assim não teremos o som de nós Quando se sopra E nem um beijo demorado de língua Você varreu minha mão do seu peito Como se espantasse um inseto Por isso tirei o coração do leito E fiz uma dobradura Escrevi em meu caderno Sobre afetos que caíram entre os espinhos E vivenciaram sufocamentos Enrolei ataduras Na dobradura de coração Para a dor permanecer muda (Tatiane Moreira em 01/03/2022) Imagem de Derek Jones

Os olhos que eu quero arrancar de mim

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Enxergar não é natural. Sobre nossos olhos, nossa mente, nosso afeto estão poderosas lentes culturais, que leem e julgam a realidade de maneira confinada. Esse olhar medidor de corpos e juventude. Esse olhar que impede potências de se realizarem, porque o que vale é manter o status quo e converter tudo em lucro. Quero arrancar de mim esses olhos. Orientados pelo sexismo que nos dividem em caixas apertadas geradoras de claustrofobia e violências. Quero me livrar dos rótulos naturalizados, mas que são forçosamente construídos, impostos. E reconfirmados por tantos formatos e configurações: a cuidadora nata de crianças, doentes e idosos. Quero também hastear a bandeira da liberdade sexual! Mas quanto o meu corpo está liberto do olhar patriarcal? E que por trás da pretensa liberdade continua servindo a libido insaciável do Capital. Arrancar esses olhos é descolonizar sentidos. Recuperar o território do próprio corpo,  Valorizar sua geografia, ex...

Empunhando o martelo das feiticeiras (Poema em áudio)