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O Pedinte

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Você em minha porta, o olhar pedinte, a presença em riste. Como deixar de te agasalhar em mim e te receber inteiro?  Como não te envolver com meus braços e pernas? E te saudar com todos os lábios os grandes e os pequenos? O recebo e o sinto crescer em mim, penetrar em mim e jorrar em cânticos seminais. (Tatiane Moreira)

"O amor é alado"

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(Título emprestado com Rubem Alves) "Muito leve, leve pousa."  (Secos e Molhados) Tal como a infinidade de sementes aladas, assim também é o amor.  Sempre a buscar terrenos férteis onde possa crescer, florescer, frutescer.  È mais que um sentimento, é semente, é processo.  Que une, envolve, enraíza, eleva, cria.  Depois de vivenciá-lo nunca mais seremos os mesmos, teremos nos expandido.  Quando o "eu" virou "nós", quando nos lançamos ao território desconhecido de outro ser. E desvendamos paisagens, humores, construindo pontes de compreensão e sentido. Escalando corpos como o sagrado corpo de uma montanha e nos tornamos um com ela.  Não é processo para  mesquinhos, ególatras ou rasos de coração.  É para os fortes na receptividade, para os corajosos na entrega.  Para os honestos frente a própria bestialidade e sem fugir da própria sombra,  tão bem refletida no outro,  a abraça, a integra.  Não é curioso que "dente de leão" n...

688 mil motivos

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Espero despertar desse pesadelo coletivo  que já dura quatro longos anos, perdemos tanto,  choramos muito. E ainda há aqueles que sustentarão o mesmo voto esquecidos das 688 mil vidas perdidas. O negacionismo os cega e não apenas. Alegarão a importância da pauta econômica, cegos para o crescente número dos sem-teto e a pobreza avassaladora sob marquises e viadutos. Nosso analfabetismo político misturado em “fake news” e máximas bíblicas obscureceu a razão. O grave problema é que a razão adormecida produz monstros,  já alertava Goya em 1799. O preço do leite, do óleo de soja ou de um simples sabonete  os tornaram artigos de luxo para muitos bolsos. E há quem diga nunca ter visto alguém pedir pão no caixa da padaria.  Nossas afirmações estão matizadas por nossos lugares de fala,  é preciso sair do exercício da cegueira contumaz para ver. Como presidente, como vou combater a fome, a miséria  se insisto em negá-la?  Se diante da dor do outro proc...

Chuva fina

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 Chuva fina me faz companhia. Silenciosas, nos observamos. Há quanto tempo não nos víamos?  Ela sempre úmida e fria, eu também fico úmida às vezes,  bem abaixo do monte de Vênus onde sempre é calor. Meus olhos seguem em vigília, espreitam lembranças,  mas não se fixam. Nada é para durar  nessa vida de arranjos temporários  e  promessas efêmeras. Deixo que a chuva fina inunde minh'alma. Ela é o amante de passagem nessa noite que me envolverá em seus braços, gotejará seu gozo sobre meu corpo  e  gentilmente me embalará nos meus sonhos noturnos. (Tatiane Moreira)

Espelho da vida

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Ventania de agosto Varrendo o que sobra do inverno  Olhos em vigília Os dissabores da vida ventam sobre mim O que estariam varrendo? A alma não adormece Analisa, busca saída Se desespera É isso mesmo vida? As questões não mudam  É sempre a mesma luta contra as misérias humanas: a inveja, o egoísmo, a soberba Mãos incapazes de se estender em auxílio  e que só apontam erros Onde há um espelho capaz de mirar no que é belo? Capaz de contemplar diferenças, não como deficiências Mas como essenciais à vida?  Essa ventania juntando tudo o que está ao rés do chão Recorda que apesar da solidão na qual caminhamos O movimento da própria vida é juntar o que está separado É sempre soma, não subtração Combinação de habilidades num coral de vozes E que embora cada voz seja única, unidas é que alcançam melhor tom Arte de Daiara Tukano,  Kahtiri E'õrõ - Espelho da vida, 2020. Exposto na 34ª Bienal de São Paulo.

Cadelas no cio

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Curioso ouvir algumas mulheres fa lando da sexualidade das mais jovens. Nada sobre a força magnetizadora do desejo. Ou do caminhar sinuoso da cintura,  o balanço de um quadril que se insinua. Tudo resumido grosseiramente: -Cadelas no cio! Também já tive treze anos, áviida de desejos. Transitando entre curiosidade e intuição. Ansiosa pelos cumes do prazer (E que só são alcançados plenamente muitas, muitas, muitas luas depois). Recuso-me a resumir em cio aquilo que matiza toda nossa existência. E que vai muito além dos feromônios. É o rito pagão do corpo, da entrega e da partilha É a loucura das bacantes atrás de Dionísio. Uivo de bucetas carnívoras. É festa boa, com dança muita e embriaguez bastante!  Recalcadas condenarão. E o feminino hostil, aquel e que se virou contra si mesmo manchado da misoginia e adorador do falo do patriarcado - mulheres secas, mulas sem cabeça s relinchando Imp ropérios, sem capacidade de refletir sobre seus próprios cabrestos.  Prefiro as cad...

Ferocidade e doçura

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Conviver exige ferocidade.  Calma, não estou incitando a violência. E sim, atenção aos nossos próprios limites. A incompreensão e exigência dos outros não pode ser absorvida. A ferocidade aqui é garantia de que nossos limites não serão ultrapassados. Vale mostrar os dentes quando necessário, vale silenciar sobre a palavra mal dita. Não absorva o que não é seu.  Que o veneno fique para quem o destila. Conviver exige doçura seja conosco mesmo, seja com quem merece seu toque de mel. Não dê pérolas a quem não as pode valorizar. Não se dê a quem insiste em não reconhecer seu valor, sua presença. Esteja sempre em exercício de ferocidade e doçura. (Tatiane Moreira)