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Beija-me

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É melhor agora, na presença do desejo, como quem alimenta a chama  para que ela não se apague,  do que depois que ele se for. Nada garante que a planta reviva  depois de seca com águas que chegam tardiamente  à terra sedenta. Por isso beija-me agora  enquanto desejo e espero por isso. Não me faça vislumbrar  a cena triste  dos casais que ao se acostumarem um com o outro, deixaram de desejar um ao outro  e fantasiam beijos de outras bocas. Nenhum afeto é certeza, é semeio de cada estação. Nenhuma escolha é definitiva, exceto a que se renova a cada dia. (Tatiane Moreira)  Referência da imagem:  The Notch Project

Significação

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  Noite alta                 Inquietação Contração dos poemas que não compus E aguardam nascer. Emoções disformes, assombrosas Lembranças difíceis demais para esquecer Sentimentos esquisitos, que não ouso nomear Palavras inaudíveis pelo tumulto da vida transformadas, transtornadas, transversais Como lesões por esforços repetitivos  Que nos conduzem ao pão de cada dia Mas nos afastam da nossa própria alma As contrações continuam  Pulsando nas têmporas Pensamentos suplicando o uso de fórceps  Ou manobra de Kristeller -  Dar a luz a si mesmo  é sempre um momento solitário e doloroso Onde nos colocamos de joelhos  Frente a necessidade humana profunda: Nossa fome perene por sentid...

Eróticas cabeças

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Sua cabeça e a minha: juntas Todos os sentidos presentes Cada poro, cada fio de cabelo Eletrizado Despertado  Pelo farejar das suas narinas E mais que me cheirar, me aspiram Ora seu rosto me roça, Ora seus dentes me raspam  O couro cabeludo  Devagar e continuamente  Devagar e continuamente O ouço gemer comigo A umidade da sua língua em meu pescoço Seu olhar selvagem  E não sei se lobo ou leão  Eu? Sua presa Entregue, dominada  Pelo bailar das nossas cabeças: juntas. (Tatiane Moreira) 

As fogueiras das inquisições humanas

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As fogueiras das inquisições humanas  Continuam a arder E queimar qualquer um que ouse  Assumir sua diversidade  Frente a dominação da monocultura  Instalada com sucesso No âmago dos homens  Qualquer um que ouse desafiar a normose  Será difamado, desacreditado, deslegitimando O bode expiatório perfeito  Para tudo o que não se ousa assumir  E que se condena com pretensa superioridade  As fogueiras da inquisição  Continuam a arder Nos olhares pérfidos de julgamentos  Movidos pela velha mesquinharia humana: Inveja, ganância, orgulho, egoísmo, E a fome insaciável de poder. (Tatiane Moreira)  Imagem da artista japonesa Tomoki Hayasaka

Tal qual uma Elvira pagã

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  Todos os homens desse nosso planeta Pensam que mulher é tal e qual um capeta Conta a história que Eva inventou a maçã  (trecho da canção Elvira Pagã - Rita Lee)     Cresci ouvindo esse disco da Rita Lee, e essa música, de maneira especial foi minha primeira iniciação ao feminismo. Na minha infância já era possível perceber o quanto carregar esse corpo feminino era fundante das experiências e percepções das desigualdades vividas. Ser percebida "tal qual um capeta" foi algo que me atravessou e também libertou, afinal "Eva inventou a maçã" , o pecado e assim derrubou o interdito. N a voz da cantora todos os rótulos destacados revelam inverdades sobre o que significa ser e se relacionar com uma mulher . Moça bonita não fala, com mulher feia se trepa com um travesseiro na cara, não se confia em uma dama da noite, amigas que falam mal pelas costas, noivas e cinderelas nuas como foi um dia Elvira pagã.        Foi nessa cantoria que percebi q...

A tabagista

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Durante muito tempo tratei com a fumaça do tabaco as minhas feridas.  Noites insones, amores desfeitos, angústias vividas, palavras dolorosas ouvidas, palavras silenciadas - tudo motivo para um trago profundo. Tudo transformado em fumaça cinzenta e triste. Feito arma apontada para meu próprio peito e por mim mesma.  Fuga, medo, covardia frente as visitas da dor.  Durante muito tempo tratei com a fumaça do tabaco as minhas feridas.  Como um legado amaldiçoado de família, na linhagem feminina, os lábios escuros daquelas que não conseguiram se exprimir.  O povo terena tem no mito da origem do fumo, a história de uma mulher que não gostava do marido e por isso resolveu fazer um feitiço. Ele descobriu e lhe devolveu o mal em uma tigela de mel misturado com vísceras de cobra venenosa, ela saboreia. Ao descobrir isso, a mulher sai em perseguição para devorar e matar o seu marido. Ela cai em uma armadilha que ele havia feito há muito tempo, do buraco onde ela caiu ...

Escrever para não pirar

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  E cá estamos na estranheza dos dias velozes...  Lucy Campbell O carnaval passou, como de praxe trouxe sorrisos  (ritualisticamente segui o bloco para não ficar ruim da cabeça, nem doente do pé) e tristezas (tem sempre alguém que não voltará vivo para casa: um acidentado, um afogado, um assassinado, um desaparecido) . Placas tectônicas mostraram o quanto a terra está viva, movente.  E isso não será o bastante para despertar os seres humanos dormentes. A síndrome de Burnout segue em alta  mostrando o quanto a forma como labutamos no ofício de cada dia   adoece a alma, essa instância do ser que carece de tempo e espaço para viver mais devagar,  respirar mais profundamente e degustar os minutos  em vez de engolir as horas em ações desprovidas de sentido. O feminicídio mancha as notícias todos os dias, todos os dias, os estupros ainda indicam a perversão dos costumes e eu finjo normalidade nessa terra insana.  Anoitece lá fora e aqui d...