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A velha

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A velha, que aos poucos vou me tornando me espreita através do espelho. Seus olhos muito sérios pedem atenção para as tramas que teço, as escolhas que faço  e me fazem sentir cada passo, cada pedaço de caminho trilhado até então. Da infância, não se esqueça da criança. Mantenha seu cultivo clandestino de esperança. Guarde como um tesouro as memórias de alegria. Se mantenha curiosa e em estado de aprendiz. Tenha gratidão pelos pais que a receberam, as mãos que te devotaram cuidado e nutrição.  Sabemos que há marcas:  a inocência perdida em carinhos inapropriados  e todo sabor de culpa na descoberta territorial do corpo; as lágrimas salgadas pelos mortos queridos  - pai, avós, tios - eles nunca mais voltaram,  mas também, de certa forma, nunca partiram. E me visitaram em sonhos e me comporam de lembranças e ausências.  Da adolescência, carregue as descobertas: o bico do seio nu apontando para o sol, as perambulações calçada com as botas de fuga, os amore...

70 carcaças de botos

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 70 carcaças de botos recolhidas Serão enterradas? Incineradas? Esquecidas? Quantos olhares indígenas sobre elas deitaram suas lágrimas?  E sopraram a fumaça do tabaco pedindo ao Grande Espírito que interceda? 70 carcaças de botos e 722 feminicídos nesse primeiro semestre! Botos e mulheres - a natureza selvagem sempre ameaçada  pelos que não toleram a vida, a liberdade e a diversidade dos seres. Quantas crianças não irão nascer porque o boto  não deixará mais as águas para dançar nas festas ribeirinhas  com as belas mulheres sacudindo saias e gargalhando felizes?  Suas carcaças são apenas uma nota de rodapé na apresentação de um jornal. Suas vidas, seus sonhos desfeitos são uma breve notícia incapaz de causar comoção.  Quantas desumanidades somos capazes de suportar?  O termômetro segue subindo, rios seguem minguando. Mineradoras continuam fabricando seu mar tóxico de lama, ceifando vidas e modos de existir.  A insaciabilidade do Capital crav...

Beija-me

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É melhor agora, na presença do desejo, como quem alimenta a chama  para que ela não se apague,  do que depois que ele se for. Nada garante que a planta reviva  depois de seca com águas que chegam tardiamente  à terra sedenta. Por isso beija-me agora  enquanto desejo e espero por isso. Não me faça vislumbrar  a cena triste  dos casais que ao se acostumarem um com o outro, deixaram de desejar um ao outro  e fantasiam beijos de outras bocas. Nenhum afeto é certeza, é semeio de cada estação. Nenhuma escolha é definitiva, exceto a que se renova a cada dia. (Tatiane Moreira)  Referência da imagem:  The Notch Project

Significação

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  Noite alta                 Inquietação Contração dos poemas que não compus E aguardam nascer. Emoções disformes, assombrosas Lembranças difíceis demais para esquecer Sentimentos esquisitos, que não ouso nomear Palavras inaudíveis pelo tumulto da vida transformadas, transtornadas, transversais Como lesões por esforços repetitivos  Que nos conduzem ao pão de cada dia Mas nos afastam da nossa própria alma As contrações continuam  Pulsando nas têmporas Pensamentos suplicando o uso de fórceps  Ou manobra de Kristeller -  Dar a luz a si mesmo  é sempre um momento solitário e doloroso Onde nos colocamos de joelhos  Frente a necessidade humana profunda: Nossa fome perene por sentid...

Eróticas cabeças

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Sua cabeça e a minha: juntas Todos os sentidos presentes Cada poro, cada fio de cabelo Eletrizado Despertado  Pelo farejar das suas narinas E mais que me cheirar, me aspiram Ora seu rosto me roça, Ora seus dentes me raspam  O couro cabeludo  Devagar e continuamente  Devagar e continuamente O ouço gemer comigo A umidade da sua língua em meu pescoço Seu olhar selvagem  E não sei se lobo ou leão  Eu? Sua presa Entregue, dominada  Pelo bailar das nossas cabeças: juntas. (Tatiane Moreira) 

As fogueiras das inquisições humanas

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As fogueiras das inquisições humanas  Continuam a arder E queimar qualquer um que ouse  Assumir sua diversidade  Frente a dominação da monocultura  Instalada com sucesso No âmago dos homens  Qualquer um que ouse desafiar a normose  Será difamado, desacreditado, deslegitimando O bode expiatório perfeito  Para tudo o que não se ousa assumir  E que se condena com pretensa superioridade  As fogueiras da inquisição  Continuam a arder Nos olhares pérfidos de julgamentos  Movidos pela velha mesquinharia humana: Inveja, ganância, orgulho, egoísmo, E a fome insaciável de poder. (Tatiane Moreira)  Imagem da artista japonesa Tomoki Hayasaka

Tal qual uma Elvira pagã

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  Todos os homens desse nosso planeta Pensam que mulher é tal e qual um capeta Conta a história que Eva inventou a maçã  (trecho da canção Elvira Pagã - Rita Lee)     Cresci ouvindo esse disco da Rita Lee, e essa música, de maneira especial foi minha primeira iniciação ao feminismo. Na minha infância já era possível perceber o quanto carregar esse corpo feminino era fundante das experiências e percepções das desigualdades vividas. Ser percebida "tal qual um capeta" foi algo que me atravessou e também libertou, afinal "Eva inventou a maçã" , o pecado e assim derrubou o interdito. N a voz da cantora todos os rótulos destacados revelam inverdades sobre o que significa ser e se relacionar com uma mulher . Moça bonita não fala, com mulher feia se trepa com um travesseiro na cara, não se confia em uma dama da noite, amigas que falam mal pelas costas, noivas e cinderelas nuas como foi um dia Elvira pagã.        Foi nessa cantoria que percebi q...