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Eu te amo

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Homem, eu te amo. Não como amei no passado  outros homens, quando eu ainda não era minha e tudo era carência, desencontros e opressões. Amor que não se podia.  Nem permitia entrega, descanso, confiança. Os braços destes homens  foram pousos, foram pausas para alçar voos mais longos e mais distantes em mim mesma. E o procurando sem saber que te procurava, terminei te encontrando.  Homem, eu te amo. Sabendo-te meu, assim como me sinto sua. Possuindo-te enquanto essa for nossa livre escolha. (Tatiane Moreira ) Fotografia do arquivo pessoal de Tatiane Moreira

Hoje chorei

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Hoje chorei. Lágrimas mornas e mansas. Cansadas de todas as léguas que correram e ainda não chegaram onde precisarão desaguar. Agora o terreno é mais seco, duro, as depressões mais fundas e não sei se dá para seguir preenchendo tudo. Ficaram muitas lacunas. (TMF)  Foto performance: A máscara da dor - por Tatiane Moreira

Onde está o corpo artístico transcendente?

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Quantas canções não foram compostas? Quantas poesias deixaram de ser gestadas? Livros que poderiam ter sido escritos, histórias narradas, desenhos, pinturas, danças. Tanta arte impedida de vir à vida porque todo corpo do trabalhador  é campo de usufruto do capital. Nele cabe a função do seu serviço,  não o corpo artístico transcendente. Este está sacrificado em 44h de trabalho semanais ou mais, sacrificado em horas de migrações pendulares na eterna ida e volta para casa convertida em espaço dormitório para um sono que não vem. A arte carece de tempo,  de andanças livres,  perambulações.  Quando nossas vidas se converteram em modos de consumo, em  peças facilmente substituíveis nessa carcomida engrenagem social  perdemos a propriedade da nossa alma.  Trocando nossas expressões viscerais por cifrões, sempre insuficientes em nosso bolso. O trabalhador que esquece sua humanidade, suas necessidades, seu sonhos vira  máquina.  É só um corpo fu...

Alimente os peixes

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Ando cansada de ser forte o tempo todo. Essa armadura pesada sobre o meu corpo. A espada cansada das batalhas. Mas se falhar a fortaleza  Onde me abrigar ou abrigar os meus? Gostaria de saber pedir e aceitar ajuda, Dizer: “não me deixe sozinha”  e assumir sem vergonha que não sei o que fazer. Alimente os peixes - é um lembrete favorável  aqueles que não podem se alimentar sozinhos. Daqueles que precisam de nós e nossas mãos atuantes. Não dá para se rebelar contra o servir  frente aos necessitados. Preciso também me lembrar  das vezes em que eu também sou necessitada. E careço de colo e repouso. Apoio e incentivo. Como me desvencilhar da culpa  frente aos “não posso”, “não quero, “não consigo”? Como fechar a porta e dormir em paz quando a incerteza envolve a senda dos que amamos?  Eu preciso lembrar: Alimente os peixes.  (Tatiane Moreira Ferreira)  Arte de Beth Conklin

A Prateleira do Amor

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A Prateleira do Amor (Dedicado a Valeska Zanello) Dispostas para uma escolha que não é nossa. Arranjadas em diversas categorias na alegórica prateleira do amor. Que prateleira é essa de lugar relativo  conforme seja o viço,  a firmeza,  a cor,  a idade da nossa pele?  Eu, você, nós  em nossas diferentes mulheridades, performadas ao gosto do freguês: um homem qualquer que nos atribua valor  e nos legitime com sua escolha. E assim convertidas em produtos consumimos rótulos e tratamentos que nos sujeitam  à sombria prateleira, competimos cegamente pelos lugares mais altos, desejados.  Empurrando umas, criticando outras, nos negando sororidade, sensualizando todas as nossas imagens. Quantas mais morrerão em desnecessárias cirurgias plásticas?  Quantas mais se submeterão ao jugo alheio? Quantas mais serão violentadas? Quantas mais?  Para saber como é ser enxergada  não como um corpo utilitário  para o servir e o prazer alheio, ...

A velha

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A velha, que aos poucos vou me tornando me espreita através do espelho. Seus olhos muito sérios pedem atenção para as tramas que teço, as escolhas que faço  e me fazem sentir cada passo, cada pedaço de caminho trilhado até então. Da infância, não se esqueça da criança. Mantenha seu cultivo clandestino de esperança. Guarde como um tesouro as memórias de alegria. Se mantenha curiosa e em estado de aprendiz. Tenha gratidão pelos pais que a receberam, as mãos que te devotaram cuidado e nutrição.  Sabemos que há marcas:  a inocência perdida em carinhos inapropriados  e todo sabor de culpa na descoberta territorial do corpo; as lágrimas salgadas pelos mortos queridos  - pai, avós, tios - eles nunca mais voltaram,  mas também, de certa forma, nunca partiram. E me visitaram em sonhos e me comporam de lembranças e ausências.  Da adolescência, carregue as descobertas: o bico do seio nu apontando para o sol, as perambulações calçada com as botas de fuga, os amore...

70 carcaças de botos

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 70 carcaças de botos recolhidas Serão enterradas? Incineradas? Esquecidas? Quantos olhares indígenas sobre elas deitaram suas lágrimas?  E sopraram a fumaça do tabaco pedindo ao Grande Espírito que interceda? 70 carcaças de botos e 722 feminicídos nesse primeiro semestre! Botos e mulheres - a natureza selvagem sempre ameaçada  pelos que não toleram a vida, a liberdade e a diversidade dos seres. Quantas crianças não irão nascer porque o boto  não deixará mais as águas para dançar nas festas ribeirinhas  com as belas mulheres sacudindo saias e gargalhando felizes?  Suas carcaças são apenas uma nota de rodapé na apresentação de um jornal. Suas vidas, seus sonhos desfeitos são uma breve notícia incapaz de causar comoção.  Quantas desumanidades somos capazes de suportar?  O termômetro segue subindo, rios seguem minguando. Mineradoras continuam fabricando seu mar tóxico de lama, ceifando vidas e modos de existir.  A insaciabilidade do Capital crav...