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"Que a vergonha mude de lado" (Giséle Pelicot)

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  Quando as perversas lentes pornográficas cairão dos seus olhos? Quando um par de seios, nádegas e vulvas deixarão de ser vistos como produtos em uma embalagem,  chamada mulher - colocada a disposição de qualquer um.  Esse território mulher exige consentimento para ser tocado. Imagine então um corpo em sua infância ou tenra mocidade imaturos para essa escolha? Dissociar o corpo da sua identidade, é objetificar o ser  e justificar sua posse, seu uso e descarte. Estupro é um sórdido prazer conspurcado cujo rastro em nosso mundo é gerador de mortes, traumas e dores sem fim. Por tempo demais, em verdadeiras histórias de terror  boiaram corpos diversos em mares de sangue: bebês, crianças, meninos e meninas,  corpos femininos de todas as idades, corpos masculinos, corpos trans. sem vida, sem dignidade ou mortos em vida arrastando as correntes da vergonha, do medo  ou da deslegetimidade.  A vítima convertida em algoz - medusas sombrias - petrificadas. D...

Relações femininas- flores em campos minados

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  Tantas vezes a mão estendida para a amizade  ficou vazia, abandonada em alguma necessidade. Falamos da sororidade, mas é ainda horizonte distante  para o eco contínuo da competitividade  Comentamos entre nós  o aspecto menos feliz  que a outra carrega incapazes de contemplar belezas,  destacar talentos, ver o brilho  sem se sentir diminuída, diluída  envenenadas pelo espelho da madrasta  quando aponta que a mais bela não sou eu. Não nos apoiamos, não nos admiramos, não nos fortalecemos exceto é claro, quem já faz parte do clubinho  que desde a infância aprendemos a cultivar com jogos de inclusão conforme o interesse  e exclusão em qualquer caso de ameaça. O patriarcado nos legou a marca da Besta.  A ferra da suspeita marca nosso corpo e subjetividade:  Para a vigilância do nosso homem não podemos confiar.  Para o reconhecimento próprio e da outra, impostora será! Nas relações femininas um campo minado foi semea...

Desconfio dos muros

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  Desconfio dos muros não pixados. Calados de imagens, nomes, palavrões protestos, declarações  de amor ou de guerra. Desconfio dos muros não pixados impecavelmente brancos  adequados a acidez cordial da aporofobia  inadequados ao encosto dos corpos para um contato físico mais íntimo.  .  Desconfio dos muros não pixados,  cercados de arames, altos demais para serem pulados,  e de onde se escuta o seco latido dos cães. Desconfio dos muros. (Tatiane Moreira Ferreira)  Grafite anônimo no bairro Serra. BH- MG Acervo pessoal, 2024.

Cuidado com a distância

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  Nas avenidas, próximo ao trabalho, estão construindo um viaduto.  E para isso a velha Flamboyant foi cortada. Ontem, eu quis fazer uma fotografia da velha Flamboyant e não fiz.  Agora tenho apenas o que fotografei com a memória. Mas a memória falha! Já tenho dúvidas se as flores eram laranjas ou vermelhas?  Laranjas e vermelhas? Tenho certeza absoluta de uma memória:  Após uma forte tempestade, uma faixa que o vento trouxe  envolveu os galhos da velha Flamboyant.  Ela parecia segurar a faixa como uma campeã.  Há quantas tempestades sobreviveu? Hoje pela manhã, ao ver todo terreno ao seu redor já delimitado,  considerei a possibilidade dela ser cortada  e mentalmente lhe enderecei palavras de liberdade,  da sua vida para além daquela forma de árvore,  da sua volta ao universo circundante.  Agradeci por ela estar ali pelo meu caminho  e por termos atravessado juntas este mesmo tempo histórico.  E já no final do e...

Pós-verdade e fuligem

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Estação do Metrô Central, outrora pertencente a antiga Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) em Belo Horizonte, hoje privatizado e "ornamentado" a pobre e tosca imagem de um supermercado. Nenhuma janela de transcendência para além de rótulos e preços, na era do Homo Consumens.  Acervo pessoal, 2024.  Na era da pós -verdade,  repleta de mitos infundados, o que é fato: é essa fuligem opaca  descolorindo os dias. Tudo parece arder, virar fumaça, especialmente se for mata, se lembrar um quilombo,  se for terra indígena.  O capital, enfim, precificou todas as almas. Cada altar, cada ação  tem a marca do seu cifrão característico. Nem tudo o que reluz é, mas tudo o que reluz é sombra humana  do que um dia, chamamos vida.  Como continuar? Com qual utopia?  Nenhuma ilusão de solidariedade e partilha  subsistem aos contratos de grilagem.  Apenas aparências: frágeis, turvas, oásis artificiais.  Tudo. Todos? Perseguindo algum ...

Das coisas que aprendi ouvindo Rita Lee - Menopower!

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  Vestida para matar em pleno climatério ... Assim começa a canção, alguns anos atrás era uma realidade distante e a música já me preparava, hoje ela me atravessa de outra forma. Vestida para matar talvez se relacione com essa esfera de raiva que tem sido constante, especialmente quando estamos mais conscientes de quem somos, das nossas contradições, limitações e também toda a possibilidade que a vida poderia ser se nossa costumeira mediocridade permitisse.  Lidar com a raiva é estar consciente dos limites e das formas que ultrapassamos ou permitimos que nossos limites sejam ultrapassados. Reconhecer a raiva é reconhecer a necessidade de nos resguardar frente aos disparates humanos que vivenciamos.  A velha senhora só vai ficar mocinha no cemitério .... Reconhecer nossa finitude e a impossibilidade de retorno ao começo é caminho do amadurecimento. A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer? (Toquinho) Quanto dessa fixação na juventude nos impede de enfrentar as d...

- Poema da Filha da Terra -