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Das coisas que crescem à revelia

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Começou gramínea rasteira e delicada no fim do verão passado,   nada que parecesse durar. Mas atravessou o outono, otimista e verdejante. Sofreu no inverno, foi pisada, secou. Achei sinceramente que morreria. Evitava aguar ou nutrir qualquer esperança. Ela atravessou silêncios e distâncias. Daí veio a primavera e bastou um leve toque para mostrar a que veio e cresceu, cresceu assustadoramente. Agora é um matagal imenso, capaz de cobrir meu corpo inteiro, invadir minhas noites e em qualquer fresta do dia se apresenta verde e resoluta. Agora é pleno verão e chove torrencialmente. Já não há distância que ela não preencha. Nem vento que não a faça dançar. Fez morada em meu peito. Profunda raiz. (TMF)    

Não, não é uma propaganda de esmalte.

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  O vermelho rebu pintado em minhas unhas Matiza o meu dia Era a cor favorita de esmalte da minha avó Recordei-me disso quando comprei o frasco Senti sua presença em mim quando pintei as unhas Apenas um adorno, alguns dirão Para mim é celebração Da minha linhagem feminina Em elo rubro vermelho Cheirando a sangue e ferro Pulsando como clitóris intumescido (TMF) 

Os cachos crespos do véu da noite

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O véu da noite possui milhões de cachos crespos Por vezes, intransponíveis. Noutras, brotam mãos que me tocam sem aviso Nas coxas, nádegas, seios. Poucas palavras sobre o desejo. Nenhuma paisagem de um caminho. Os cachos crespos penetram meus sonhos, Como se penetrassem minha vagina, De maneira completa, envolvente, Me deixando úmida e quente. Perdida em gemidos. Dos seus milhões de gametas derramados em mim Brotam outros milhões de cachos crespos Que me cobrem, me acolhem e me colocam para dormir. (Tatiane Moreira)  Black art de Justin Copeland

Sobre envelhecer, amar e outras revoluções possíveis

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  43 Encontro-me no quadragésimo terceiro andar deste edifício chamado vida, um estranho edifício em espiral, que a cada volta nos recorda as muitas outras que passaram e que sentimos de alguma forma presentes em ondulações sob a pele. São justamente essas ondulações que nos marcam a tez, ou que ficam em nódulos difíceis de extirpar. É semelhante ao teste da menina num antigo conto, no qual ela sente o pequenino caroço de ervilha sob as muitas camadas de colchões sobre os quais se deita. No conto, o teste era para ver se ela seria uma boa esposa, na vida real se contextualizarmos a história podemos considerar o teste quanto as nossas percepções sobre as ondulações na espiral da vida, e apesar dos incômodos do passado sermos uma boa companhia para nós mesmas. Tudo dependerá do olhar que damos para nossa própria história, do quanto dimensionamos os acontecimentos. A história traduz exatamente como me sinto: incomodada. Não com a passagem do tempo, ou com as comuns dificuldades cotidi...

Na força das minhas ancestrais

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Há muito tempo escrevi num poema que eu descendia de uma linhagem de mulheres amargas e sofridas. E nas camadas mais próximas da minha linhagem, essa é a verdade, mas não completamente. Amargura e sofrimento não significam ausência de força. E nos alicerces, nos ossos mais profundos da minha ancestralidade estão elas:  Lilith visitando Eva, ajudando-a a vomitar a culpa que o patriarcado impôs sobre ela.  A jovem Maria corajosa, levando adiante sua gestação sagrada e também todas aquelas que exerceram o livre-arbítrio, igualmente sagrado, de não levar adiante uma gestação.  Maria Madalena, Verônica, Maria e Marta e todas as que tiveram a honra de encontrar Jesus - o doce homem - o que se fez defensor da mulher adúltera e ensinou que também nós, mulheres, podemos escolher a melhor parte e isso não nos será tirado.  As bruxas queimadas nas fogueiras da inquisição. Seus corpos ao se tornarem fumaça espargiram pela terra seus saberes, suas vivências, seus orgasmos...

Saí a semear amor

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Já entendi, Tristeza, a sua visita, os seus motivos, o seu amargor. Dos espinhos que aceitei carregar como ilusão de carinho. Mas o carinho não fere, não é mesmo?  Foi por isso que você veio, para me mostrar a ilusão.  Eu, mendigando, estendendo as mãos para quem nada tem para dar.  E o meu cesto tão cheio de tesouros. Levanta e anda - você disse sem cerimônias. Embora tenha respeitado cada lágrima  Que eu precisei chorar para expurgar o desamor.  Depois desse banho salgado me senti melhor.  O amor estava lá para me acolher, me secar, me vestir. E o mais importante: me por a caminhar.  Desde então estou a semear amor.  Faço ninho em todos os corações que queiram me receber. E voo livre como sempre fui, e não sabia.  Livre como sempre serei.  (Tati) Tristeza - canção para acompanhar a leitura.

Das pessoas que nos devolvem para nós

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Sim, há aqueles/ aquelas que nos roubam de nós, espelham nossas deficiências e falhas, não se importam com nossas lágrimas e não deixam sequer uma palavra de adeus ou um sinto muito, talvez porque não sintam nada além de si mesmos. E que se fodam! Mas há aqueles/ aquelas que se importam conosco de verdade e colocam uma lente de aumento para que enxerguemos nossas melhores qualidades, nossas delicadezas e todas as sutilezas da beleza que possuímos. Pessoas como remédio, como unguento e despejando seus olhos sobre nós restituem nossa dignidade, nos recordam a importância do amor-próprio através do amor delicado com que nos tocam. Para estes, toda paz e toda glória! Para que estamos na vida uns dos outros se não for para estender mãos, braços, colo? Para que conversaremos se não for para deitar nossas melhores palavras nos ouvidos uns dos outros? Se não for para acolher, para que conviver? Se não for para amar loucamente, por que esse coração feroz batendo no peito?