Postagens

Pós-verdade e fuligem

Imagem
Estação do Metrô Central, outrora pertencente a antiga Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) em Belo Horizonte, hoje privatizado e "ornamentado" a pobre e tosca imagem de um supermercado. Nenhuma janela de transcendência para além de rótulos e preços, na era do Homo Consumens.  Acervo pessoal, 2024.  Na era da pós -verdade,  repleta de mitos infundados, o que é fato: é essa fuligem opaca  descolorindo os dias. Tudo parece arder, virar fumaça, especialmente se for mata, se lembrar um quilombo,  se for terra indígena.  O capital, enfim, precificou todas as almas. Cada altar, cada ação  tem a marca do seu cifrão característico. Nem tudo o que reluz é, mas tudo o que reluz é sombra humana  do que um dia, chamamos vida.  Como continuar? Com qual utopia?  Nenhuma ilusão de solidariedade e partilha  subsistem aos contratos de grilagem.  Apenas aparências: frágeis, turvas, oásis artificiais.  Tudo. Todos? Perseguindo algum ...

Das coisas que aprendi ouvindo Rita Lee - Menopower!

Imagem
  Vestida para matar em pleno climatério ... Assim começa a canção, alguns anos atrás era uma realidade distante e a música já me preparava, hoje ela me atravessa de outra forma. Vestida para matar talvez se relacione com essa esfera de raiva que tem sido constante, especialmente quando estamos mais conscientes de quem somos, das nossas contradições, limitações e também toda a possibilidade que a vida poderia ser se nossa costumeira mediocridade permitisse.  Lidar com a raiva é estar consciente dos limites e das formas que ultrapassamos ou permitimos que nossos limites sejam ultrapassados. Reconhecer a raiva é reconhecer a necessidade de nos resguardar frente aos disparates humanos que vivenciamos.  A velha senhora só vai ficar mocinha no cemitério .... Reconhecer nossa finitude e a impossibilidade de retorno ao começo é caminho do amadurecimento. A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer? (Toquinho) Quanto dessa fixação na juventude nos impede de enfrentar as d...

- Poema da Filha da Terra -

 

Ensaios de despedida

Imagem
Quando você começou a morrer  Parte de mim também  entrou no processo. A dor, essa barca escura  já está ancorada no cais guiando os seus passos  para a longa viagem. Seu braço paralisado, suas lágrimas inconsoláveis  e não há nada que eu possa fazer para minimizar tudo isso.  Assisto atônita, em mudo desespero, com medo da amarga notícia.  Revisitei minhas gavetas de filha  todas as lembranças dobradas, devidamente atualizadas. Penduro no varal da memória as mais caras: nós dançando na chuva de um domingo qualquer, partilhando a mesma mesa e o sabor do seu tempero inconfundível, trocando confidências, lamentando juntas as marcas da vida, tomando nosso café amargo. Não há nenhuma dívida pendente. Eu compreendo: cada um só dá o que pode  dentro das condições impostas pela existência. Tudo o que posso é agradecer de coração  e guardar bem junto do peito  sua imagem me acenando da janela de um domingo qualquer. (Tatiane Moreira Ferreir...

Eu te amo

Imagem
Homem, eu te amo. Não como amei no passado  outros homens, quando eu ainda não era minha e tudo era carência, desencontros e opressões. Amor que não se podia.  Nem permitia entrega, descanso, confiança. Os braços destes homens  foram pousos, foram pausas para alçar voos mais longos e mais distantes em mim mesma. E o procurando sem saber que te procurava, terminei te encontrando.  Homem, eu te amo. Sabendo-te meu, assim como me sinto sua. Possuindo-te enquanto essa for nossa livre escolha. (Tatiane Moreira ) Fotografia do arquivo pessoal de Tatiane Moreira

Hoje chorei

Imagem
Hoje chorei. Lágrimas mornas e mansas. Cansadas de todas as léguas que correram e ainda não chegaram onde precisarão desaguar. Agora o terreno é mais seco, duro, as depressões mais fundas e não sei se dá para seguir preenchendo tudo. Ficaram muitas lacunas. (TMF)  Foto performance: A máscara da dor - por Tatiane Moreira

Onde está o corpo artístico transcendente?

Imagem
Quantas canções não foram compostas? Quantas poesias deixaram de ser gestadas? Livros que poderiam ter sido escritos, histórias narradas, desenhos, pinturas, danças. Tanta arte impedida de vir à vida porque todo corpo do trabalhador  é campo de usufruto do capital. Nele cabe a função do seu serviço,  não o corpo artístico transcendente. Este está sacrificado em 44h de trabalho semanais ou mais, sacrificado em horas de migrações pendulares na eterna ida e volta para casa convertida em espaço dormitório para um sono que não vem. A arte carece de tempo,  de andanças livres,  perambulações.  Quando nossas vidas se converteram em modos de consumo, em  peças facilmente substituíveis nessa carcomida engrenagem social  perdemos a propriedade da nossa alma.  Trocando nossas expressões viscerais por cifrões, sempre insuficientes em nosso bolso. O trabalhador que esquece sua humanidade, suas necessidades, seu sonhos vira  máquina.  É só um corpo fu...