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Troféus

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Fiquei presa na rede ou me deixei prender?  A isca brilhante que me atraiu parecia amor.  Promessa de banquete farto, comida boa.  Riso transbordando das taças.  Prometia passeios por paisagens esplêndidas,  e muitos beijos sob a luz do luar.   Mas, das imensas cachalotes e jubartes  restaram apenas troféus em forma de arpão.  Isso talvez lustre algum ego,  por algum tempo,  até que seja apenas mais um objeto,  empoeirado e esquecido  em alguma prateleira da memória.    São irreparáveis as perdas:  o corpo apodrecendo na rede,  os beijos não colhidos,  os óvulos não fecundados,  as histórias não escritas.  É bom recordar:  criaturas das profundezas  não são adequadas para abraços rasos.  (TMF em 04/09/2021)

Das coisas que crescem à revelia

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Começou gramínea rasteira e delicada no fim do verão passado,   nada que parecesse durar. Mas atravessou o outono, otimista e verdejante. Sofreu no inverno, foi pisada, secou. Achei sinceramente que morreria. Evitava aguar ou nutrir qualquer esperança. Ela atravessou silêncios e distâncias. Daí veio a primavera e bastou um leve toque para mostrar a que veio e cresceu, cresceu assustadoramente. Agora é um matagal imenso, capaz de cobrir meu corpo inteiro, invadir minhas noites e em qualquer fresta do dia se apresenta verde e resoluta. Agora é pleno verão e chove torrencialmente. Já não há distância que ela não preencha. Nem vento que não a faça dançar. Fez morada em meu peito. Profunda raiz. (TMF)    

Não, não é uma propaganda de esmalte.

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  O vermelho rebu pintado em minhas unhas Matiza o meu dia Era a cor favorita de esmalte da minha avó Recordei-me disso quando comprei o frasco Senti sua presença em mim quando pintei as unhas Apenas um adorno, alguns dirão Para mim é celebração Da minha linhagem feminina Em elo rubro vermelho Cheirando a sangue e ferro Pulsando como clitóris intumescido (TMF) 

Os cachos crespos do véu da noite

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O véu da noite possui milhões de cachos crespos Por vezes, intransponíveis. Noutras, brotam mãos que me tocam sem aviso Nas coxas, nádegas, seios. Poucas palavras sobre o desejo. Nenhuma paisagem de um caminho. Os cachos crespos penetram meus sonhos, Como se penetrassem minha vagina, De maneira completa, envolvente, Me deixando úmida e quente. Perdida em gemidos. Dos seus milhões de gametas derramados em mim Brotam outros milhões de cachos crespos Que me cobrem, me acolhem e me colocam para dormir. (Tatiane Moreira)  Black art de Justin Copeland

Sobre envelhecer, amar e outras revoluções possíveis

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  43 Encontro-me no quadragésimo terceiro andar deste edifício chamado vida, um estranho edifício em espiral, que a cada volta nos recorda as muitas outras que passaram e que sentimos de alguma forma presentes em ondulações sob a pele. São justamente essas ondulações que nos marcam a tez, ou que ficam em nódulos difíceis de extirpar. É semelhante ao teste da menina num antigo conto, no qual ela sente o pequenino caroço de ervilha sob as muitas camadas de colchões sobre os quais se deita. No conto, o teste era para ver se ela seria uma boa esposa, na vida real se contextualizarmos a história podemos considerar o teste quanto as nossas percepções sobre as ondulações na espiral da vida, e apesar dos incômodos do passado sermos uma boa companhia para nós mesmas. Tudo dependerá do olhar que damos para nossa própria história, do quanto dimensionamos os acontecimentos. A história traduz exatamente como me sinto: incomodada. Não com a passagem do tempo, ou com as comuns dificuldades cotidi...

Na força das minhas ancestrais

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Há muito tempo escrevi num poema que eu descendia de uma linhagem de mulheres amargas e sofridas. E nas camadas mais próximas da minha linhagem, essa é a verdade, mas não completamente. Amargura e sofrimento não significam ausência de força. E nos alicerces, nos ossos mais profundos da minha ancestralidade estão elas:  Lilith visitando Eva, ajudando-a a vomitar a culpa que o patriarcado impôs sobre ela.  A jovem Maria corajosa, levando adiante sua gestação sagrada e também todas aquelas que exerceram o livre-arbítrio, igualmente sagrado, de não levar adiante uma gestação.  Maria Madalena, Verônica, Maria e Marta e todas as que tiveram a honra de encontrar Jesus - o doce homem - o que se fez defensor da mulher adúltera e ensinou que também nós, mulheres, podemos escolher a melhor parte e isso não nos será tirado.  As bruxas queimadas nas fogueiras da inquisição. Seus corpos ao se tornarem fumaça espargiram pela terra seus saberes, suas vivências, seus orgasmos...

Saí a semear amor

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Já entendi, Tristeza, a sua visita, os seus motivos, o seu amargor. Dos espinhos que aceitei carregar como ilusão de carinho. Mas o carinho não fere, não é mesmo?  Foi por isso que você veio, para me mostrar a ilusão.  Eu, mendigando, estendendo as mãos para quem nada tem para dar.  E o meu cesto tão cheio de tesouros. Levanta e anda - você disse sem cerimônias. Embora tenha respeitado cada lágrima  Que eu precisei chorar para expurgar o desamor.  Depois desse banho salgado me senti melhor.  O amor estava lá para me acolher, me secar, me vestir. E o mais importante: me por a caminhar.  Desde então estou a semear amor.  Faço ninho em todos os corações que queiram me receber. E voo livre como sempre fui, e não sabia.  Livre como sempre serei.  (Tati) Tristeza - canção para acompanhar a leitura.