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Escrever para não pirar

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  E cá estamos na estranheza dos dias velozes...  Lucy Campbell O carnaval passou, como de praxe trouxe sorrisos  (ritualisticamente segui o bloco para não ficar ruim da cabeça, nem doente do pé) e tristezas (tem sempre alguém que não voltará vivo para casa: um acidentado, um afogado, um assassinado, um desaparecido) . Placas tectônicas mostraram o quanto a terra está viva, movente.  E isso não será o bastante para despertar os seres humanos dormentes. A síndrome de Burnout segue em alta  mostrando o quanto a forma como labutamos no ofício de cada dia   adoece a alma, essa instância do ser que carece de tempo e espaço para viver mais devagar,  respirar mais profundamente e degustar os minutos  em vez de engolir as horas em ações desprovidas de sentido. O feminicídio mancha as notícias todos os dias, todos os dias, os estupros ainda indicam a perversão dos costumes e eu finjo normalidade nessa terra insana.  Anoitece lá fora e aqui d...

Hoje é dia para um chá bem forte de Artemísia

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Aprendi que nos dias mais apertados, para não dizer aflitivos (mesmo existindo aqueles que afirmarão: não há motivo para aflição em sua vida!), é tempo de preparar uma boa xícara de chá quentinho de Artemísia . "Artemisia vulgaris" de muitos nomes populares, perigosa por ser abortiva, desejada por acalmar os nervos. Na mitologia grega, Ártemis é aquela que ao nascer ajudou sua própria mãe a dar à luz ao seu irmão, Apolo. É justamente desta ajuda que preciso, seja para parir ideias, poemas, seja para menstruar sem dor, para acalmar os pensamentos e estar só comigo mesma, assim como Ártemis viveu, só consigo mesma.  Então me desculpem se hoje estou com menor repertório de palavras e mais de sons, se as lágrimas rolarem sem cerimônias e minha espada afiada ir mais fundo do que deveria. É tudo culpa da lua que me atravessa e me faz meio bicho. Não vai dar para ser razoável ou usar a lógica, os pelos se eriçam, a audição fica sensível e não quero que me toquem, nem que me vejam. T...

Esse seio

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  Esse seio aguardava sua boca, sua língua. Aguardava seu toque  como as cordas de um violão aguardam seu violeiro. Esse seio, intumescido de desejo transborda em sua presença, o sonho   de ser via láctea  no céu da sua boca. Esse seio balança  na cavalgada sobre seu corpo. Esse seio adormece ao seu lado colado em seu peito. Esse seio desenhado, pintado em tons azuis  simboliza meu anseio constante  por suas mãos que me alcançam de tantas formas,  ordenham tantos acordes e gemidos,  harmônicos e ensandecidos  gotejando de mim.  (Tatiane Moreira para J.L.) 

Gustativo

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A vida, essa experiência de sabores, alguns fugidios, apressados, mal temos tempo de saboreá-los. Lembranças de passagens  como paisagens vistas em trânsito e que no carrossel dos dias logo ficam para trás. Qual era mesmo o sabor que tinham? Quanto a liquidez dos tempos não tem nos permitido sentir  e sem pressa sentar à mesa da vida? Há sabores fabricados, artificiais demais, refinados, embranquecidos,  roubando a qualidade integral da vida. Tem amargores que duram um tempo longo na língua: portas fechadas em braços que desejávamos abertos. Há doçuras recebidas com um beijo, olhares que trazem moradas, mãos que se entrelaçam. Há o azedo das incompreensões, respostas grosseiras e atravessadas, negativas. E o salgado das lágrimas e das peles suadas  num encontro de amor, levemente apimentado, adocicado e embriagante. O que no prato da existência nos saboriza pelos caminhos?  O que causa asco e ânsia de vômito? Qual a dança gustativa em sua língua  quando voc...

O Pedinte

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Você em minha porta, o olhar pedinte, a presença em riste. Como deixar de te agasalhar em mim e te receber inteiro?  Como não te envolver com meus braços e pernas? E te saudar com todos os lábios os grandes e os pequenos? O recebo e o sinto crescer em mim, penetrar em mim e jorrar em cânticos seminais. (Tatiane Moreira)

"O amor é alado"

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(Título emprestado com Rubem Alves) "Muito leve, leve pousa."  (Secos e Molhados) Tal como a infinidade de sementes aladas, assim também é o amor.  Sempre a buscar terrenos férteis onde possa crescer, florescer, frutescer.  È mais que um sentimento, é semente, é processo.  Que une, envolve, enraíza, eleva, cria.  Depois de vivenciá-lo nunca mais seremos os mesmos, teremos nos expandido.  Quando o "eu" virou "nós", quando nos lançamos ao território desconhecido de outro ser. E desvendamos paisagens, humores, construindo pontes de compreensão e sentido. Escalando corpos como o sagrado corpo de uma montanha e nos tornamos um com ela.  Não é processo para  mesquinhos, ególatras ou rasos de coração.  É para os fortes na receptividade, para os corajosos na entrega.  Para os honestos frente a própria bestialidade e sem fugir da própria sombra,  tão bem refletida no outro,  a abraça, a integra.  Não é curioso que "dente de leão" n...

688 mil motivos

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Espero despertar desse pesadelo coletivo  que já dura quatro longos anos, perdemos tanto,  choramos muito. E ainda há aqueles que sustentarão o mesmo voto esquecidos das 688 mil vidas perdidas. O negacionismo os cega e não apenas. Alegarão a importância da pauta econômica, cegos para o crescente número dos sem-teto e a pobreza avassaladora sob marquises e viadutos. Nosso analfabetismo político misturado em “fake news” e máximas bíblicas obscureceu a razão. O grave problema é que a razão adormecida produz monstros,  já alertava Goya em 1799. O preço do leite, do óleo de soja ou de um simples sabonete  os tornaram artigos de luxo para muitos bolsos. E há quem diga nunca ter visto alguém pedir pão no caixa da padaria.  Nossas afirmações estão matizadas por nossos lugares de fala,  é preciso sair do exercício da cegueira contumaz para ver. Como presidente, como vou combater a fome, a miséria  se insisto em negá-la?  Se diante da dor do outro proc...