Postagens

(Des)encontro

Imagem
  O Abraço de amor do Universo, a Terra (México), eu, Diego e Senhor Xolotl, de Frida Khalo, 1949. (Des) Encontro Entre Eros e Psique Um acordo tácito Ela não poderia vê-lo Talvez porque ao ver Não enxergamos só beleza Também todos os aspectos Infelizes, inaceitáveis, contraditórios Somos o que somos Não dá para esconder Somos traídos por nossa própria língua   O que buscamos no outro? O que buscamos em nós? É a partir dessa busca Que se dará um encontro Talvez comunguemos corpos e línguas Talvez comunguemos ideias Talvez não haja nenhuma liga   A profundidade só se dará Sobre o quanto nos permitirmos ser tocados Despidos da nossa carapaça de proteção Abdicando das lentes de expectativas Projeções Abraçando juntos Nossa própria imperfeição. (Tatiane Moreira para Ele)   Secret Affair Between a Married Man and a Married Woman, 1799 Kitagawa Utamaro (1753-1806)     
Imagem
  Hoje a esperança bateu na porta. O medo que me acompanha hesitou. Deixá-la entrar significaria voltar a acreditar na vida. Mas como em meio a essa pandemia? Ou frente a um estado desgovernado? Como? Se tantos estão sofrendo, morrendo? Lá de fora, a esperança apenas assoviou. -Está só despistando, sussurrou o medo. Talvez seja mesmo necessário, despistar essa tristeza para roubar um sorriso. Hoje a esperança bateu na porta. E apesar de todos os motivos para não a receber, justamente por tudo isso é preciso acolhê-la. Abrigar nas entranhas essa força tamanha que não tardará a lutar. O medo arredou, deu espaço. A esperança me deu um forte abraço. E me engravidou! (Tatiane Moreira)

Procura-se imóvel de movimentada poesia

Imagem
Olho para casas como se procurasse parceiros para uma relação a longo prazo. Tento sentir a energia, se há afinidade para longas horas de trocas dialógicas. Se as janelas me sorriem, se a porta se abre. Se há flores selvagens brotando em alguma fresta. Se há espaço para festa e celebração da vida. Quais sons ela emite? Qual memória guarda? O cheiro é bom? Tem personalidade? Possui algum vão secreto para a gente se amar? Quais goteiras esconde para chorarmos juntos? Há carinho sob a pintura descascada? Tem algum projeto de floresta no quintal insuspeito? Possibilidade de produção e tráfico de sementes crioulas para futuros campos férteis? Olho para casas como se procurasse parceiros para uma relação a longo prazo. De vigas inabaláveis, feito braços longos e firmes para a donzela repousar. De muros protetores contra invasores. Felinos contra ratos. De palavras doces e olhar manso daquele que já sabe que não vale a pena viver em estado de guerra, pois a v...

Violências

Imagem
  Muito cedo aprendi que os valores não eram os mesmos para meninas e meninos. E meu pequeno corpo aprendeu a docilidade amarga do sim, aceite! Aceite que te maltratem, que não se desculpem, que te desvalorizem. Tornar-se mulher foi aprender o lugar do desvalor. Da palavra sem voz, da voz sem escuta. Do choro sem consolo, da violência sem defesa. Como muitas antes de mim, aprendi a sorrir para o agressor. A transmutar fel em mel. Venho de um longo percurso de violências: Meus seios ainda nem tinham despontado e já me chamavam de puta, pelo tamanho da minha saia na escola, aos nove anos de idade. Cresci convivendo com meninas e mulheres, que como boas filhas do patriarcado, consideravam umas às outras como competidoras, traidoras, infiéis. Certa vez passando pela rua, um grupo de rapazes me lançaram a palavra costumeira: puta! E eu não teria ninguém a quem recorrer para me defender. Reuni toda coragem que uma jovem de doze anos pode reunir e chutei um deles. Com a minha parca força...

Ouvidos de Vênus

Imagem
  Derrama as palavras como líquida água benta   aquecida e fervorosa na minha escuta atenta. Na beira das orelhas ansiosas por partilhas reais e desnudas  desfaça-se de inúteis verborragias. Nos ouvidos de Vênus só há espaço para o essencial, para o visceral, para o que é real. Escutar é minerar ouro. Não valem cascalhos duros e frios. Não valem palavras vazias,  ainda que travestidas de pomposo discurso.  Vale o que o coração pulsa. Valem os gritos do âmago. Vale o desejo quase suicida de se entregar inteiro. Nos ouvidos de Vênus  os sons entram descalços,  deslizam cuidadosos  para o alcance de uma fusão poderosa  que chamamos de compreensão.  Fala, mas pesa as palavras. Recorda de Anúbis pesando o coração dos mortos no submundo. Assim como o coração, as palavras devem pesar feito pena. Nem mais, nem menos.  (Tatiane Moreira)

Canção para um jovem amante

Imagem
  Canção para um jovem amante Muito além de uma inspiração masturbante, o desejo é o que vibra em nossas entranhas. Terreno estranho que não cabe asco tudo tem sabor, cheiro, textura. E se não for para se embriagar inteiro é perda de oportunidade de encontro seja entre dois ou mais seres. Ninguém te falou, mas eu disse: - A sexualidade é sagrada, tanto para os santos quanto para os hereges. É nela que geramos vida, não só a possibilidade de um corpo, mas a troca de energia, a geração de memória, a história e a fala dos corpos que se penetram. Quem penetra e quem é penetrado? Não se pode dizer. É o terreno do sentir e sentir basta. Os limites do eu se dissolvem, são as águas a nos fertilizar. É tudo tão rico que não cabe a pobreza das repressões, os nãos vividos, as não entregas, os não-me-toques. Quando estiver diante de outro ser – se entrega. Vá além da performance. Cada corpo é um instrumento que é preciso aprender a tocar. E instintiv...

Um olhar perineal

Imagem
Ilustração Ana Persona (Disponível em:< https://theintercept.com/2018/09/10/pontodomarido/>. )  Um olhar perineal Estive em uma consulta ginecológica de rotina. E enquanto espero e percebo as várias outras mulheres em espera, penso nas entranhas dos nossos corpos e o quanto para tantas, ainda é um corpo estranho com o qual, muitas vezes não dialogamos. Temos as sensações de prazer, dor, mas o quanto isso transpassa nossa consciência? Tenho 43 anos recém-completados e estamos em 2021, ainda atravessando uma pandemia que me parece eterna. Ano passado devido a essa situação pandêmica, não fui a nenhuma consulta, então preciso ir. (Preciso?) O ginecologista, um senhor de talvez sessenta anos, desgrenhado com sua cabeleira grisalha. Mais preocupado em digitar com dois dedos do que em me ouvir, e olha que nem é uma consulta do Sistema Único de Saúde brasileiro, mas conveniada, e que dependendo da visão capitalista do distinto médico, dá no mesmo. O que infelizmente signifi...